Por Jean de Menezes Severo
Queridos
leitores, semana tensa de muito trabalho aqui no sul. Acabo de assumir a
defesa de Edelvânia Wirganovicz, juntamente com meu colega e irmão
Gustavo Nagelstein. Edelvânia esta sendo acusada de homicídio
triplamente qualificado e ocultação de cadáver em um dos processos de
maior repercussão no estado do Rio Grande do Sul, caso midiático e que
deve ser tratado com o maior cuidado por esta defesa.
Ainda
estamos nos inteirando dos autos e a única coisa que posso dizer neste
momento é que encontrei uma mulher completamente destruída na prisão, o
cárcere esta terminando com a acusada e isto me preocupa. Ela nega de
forma ferrenha a participação no homicídio e confia plenamente na defesa
deste defensor que os escreve. Tenho intimidade e lealdade com meu
leitor e por isso divido com vocês esta informação, como faço
semanalmente com todos os meus processos criminais. Sinto-me preparado
para este mais este trabalho e que venha o plenário do júri!
Quando
participo de julgamentos frente ao Tribunal do Júri, uma das situações
que mais me instiga na função de defensor é saber o que pensa o jurado, o
que faz com que um jurado absolva ou condene um acusado. O que se passa
na cabeça deste
julgador, que tira o seu dia para
julgar um semelhante. Será que este
julgador já sai de casa propenso a condenar frente a criminalidade que ocupa os jornais e mídias sociais no nosso dia a dia?
Não
sei se um dia terei respostas paras estas indagações. Meu trabalho de
mestrado é sobre o perfil do jurado julgador, principal protagonista do
julgamento realizado pelo tribunal do povo. Este recebe, na grande
maioria das vezes, um processo com milhares de páginas sem ter
acompanhado a produção da prova produzida desde a fase policial,
passando pela instrução processual até a prolação da sentença pelo juiz
togado.
No dia do júri, o jurado ouve o acusado pela primeira vez
no processo. No entanto, este réu já por duas vezes forneceu sua versão
do ocorrido (delegacia e instrução conduzida pelo juiz togado) e
testemunhas estas são raras quando do julgamento feito em plenário. Na
realidade, o jurado tem que se contentar com que já está nos autos, daí a
importância de ser um defensor atento não só no dia do plenário, mas
sim desde a fase policial quando o acusado pela primeira vez é ouvido
nos autos, nos autos sim, já que não podemos retirar do processo físico o
depoimento prestado na fase policial.
Cansei de ver acusados
sendo condenados apenas com a prova produzida na delegacia, afinal de
contas o jurado julga pela livre convicção e não precisa fundamentar seu
voto. Apenas responde “sim” ou “não” e não pode de jeito algum se
comunicar com os demais jurados em relação ao julgamento.
Tenho
já uma convicção nos quase 100 júris que participei: acusado com
diferentes versões (fase policial, instrução juiz de Direito e plenário)
pode ter certeza da condenação. Daí a dificuldade de fazer apenas o
plenário do júri, sem ter acompanhado na qualidade de defensor a
produção nas outras fases do processo. Sempre digo que meu sonho de
consumo é poder acompanhar um réu desde a fase policial.
Outra
crítica que faço é quando o réu se cala ao invés de falar em seus
interrogatórios. Réu defendido por mim defende-se sempre quando tem a
oportunidade de falar. O jurado por receber o processo apenas no dia do
julgamento já fica inclinado a condenação, frente ao réu que se calou
quando podia falar.
O júri é decidido no detalhe, portanto cabe
ao defensor e somente ele se preocupar com todos os detalhes que cercam o
julgamento, que se inicia com a escolha dos jurados, interrogatórios,
depoimentos das vítimas, peritos, saudação, apresentação de tese
defensiva compatível com os autos, apartes feitos no momento certo,
oratória segura e clara de fácil entendimento ao jurado, que não é um
técnico ligado ao Direito na grande maioria das vezes.
Pretendo
em minhas próximas colunas escrever mais sobre o Tribunal do Júri e
sustentação oral, acho que estas são grandes dúvidas que afligem os
estudantes de Direito, que aprendem tudo nas universidades de Direito,
menos como advogar, e isso não é culpa dos estudantes e sim das
instituições.
Deixo meu abraço fraternal aos leitores e divido
com vocês um dia de muita alegria para este advogado, lancei juntamente
com meus colegas de mestrado nosso livro, Processo Penal Contemporâneo
em Perspectiva, excelente obra com a coordenação do, professor Doutor
Nereu Giacomolli, eu me sinto um privilegiado por ter feito meu mestrado
junto a PUCRS e por ter estudado ao lado de colegas tão brilhantes,
seres humanos generosos, amigos acima de tudo, já estou com saudades de
todos vocês, o guri pobre criado em Porto Alegre já tem seu livro, agora
só me falta plantar uma árvore, obrigado meus colegas, obrigado
professores, obrigado meus Deus!
Fonte: Canal Ciências Criminais